Edson Braga defende inovação focada em melhorar produtos que já estão no mercado

Empresário do setor alimentício avalia que inovação não deve ser medida apenas pelo número de lançamentos, mas também pela capacidade de melhorar produtos que já possuem escala

A indústria de alimentos costuma medir inovação pelo lançamento de novos sabores, embalagens, categorias e SKUs. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, essa lógica pode ser ampliada para incluir uma frente menos visível, mas estratégica: a melhoria contínua dos produtos que já estão no mercado.

Na avaliação de Braga, alimentos consolidados não deveriam ser tratados como projetos encerrados após o lançamento. Mudanças em matérias-primas, processos, tecnologias, fornecedores e hábitos de consumo criam novas oportunidades de desenvolvimento ao longo do tempo.

A proposta é utilizar o próprio portfólio como fonte permanente de inovação, com revisões capazes de melhorar sabor, composição, eficiência e desempenho industrial sem necessariamente criar um novo produto.

Produtos existentes podem concentrar oportunidades de inovação

Itens que já possuem escala acumulam informações importantes sobre vendas, recompra, reclamações, perdas, custos e comportamento operacional.

Esses dados podem orientar projetos de P&D com menor dependência de lançamentos.

Em vez de olhar apenas para tendências externas, empresas podem analisar seus produtos mais vendidos e identificar onde ainda existem oportunidades de evolução.

Uma melhoria pequena em um produto de grande volume pode gerar efeitos relevantes quando repetida milhões de vezes.

Produtos de sucesso também precisam ser reavaliados

O bom desempenho comercial pode reduzir a disposição de uma empresa para revisar determinada formulação.

Mas concorrência, tecnologia, custos e comportamento do consumidor continuam mudando.

Por isso, Braga defende revisões periódicas dos principais produtos.

A análise pode considerar se a matéria-prima, embalagem, fermentação, shelf life, composição e demais escolhas técnicas ainda representam a melhor solução disponível.

A revisão não significa necessariamente mudança. Em alguns casos, pode apenas confirmar que o produto continua adequado.

Identidade do produto pode ser preservada durante a evolução

Modificar um alimento consolidado exige cuidado para não comprometer características reconhecidas pelo consumidor.

Sabor, textura, aroma e experiência precisam ser preservados quando fazem parte da identidade da marca.

Isso, porém, não significa manter todas as decisões técnicas tomadas no passado.

Uma empresa pode melhorar matérias-primas, processos, embalagens ou perfil nutricional sem descaracterizar o produto.

O desafio está em separar aquilo que define a identidade daquilo que pode evoluir.

Reformulação exige mais do que retirar ingredientes

Mudanças relacionadas a açúcar, sódio, gorduras e outros componentes podem afetar textura, estrutura, conservação e sabor.

Por isso, reformulação precisa ser tratada como desenvolvimento de produto.

Novas matérias-primas, fermentações, enzimas, fibras e tecnologias de processo podem ser utilizadas para compensar funções perdidas.

O objetivo é melhorar a composição sem reduzir aceitação e recompra.

Na avaliação de Braga, um produto tecnicamente melhor, mas sensorialmente inferior, possui alcance limitado.

Escala aumenta o impacto de pequenas melhorias

Produtos de consumo recorrente podem ampliar significativamente o efeito de alterações discretas.

Melhorar matéria-prima, reduzir excessos ou aumentar fibras em um alimento consumido por milhões de pessoas pode gerar impacto maior do que lançar uma opção mais avançada destinada a um público restrito.

Essa lógica transforma escala em uma ferramenta de inovação.

Quanto maior o volume do produto, maior também o resultado potencial de uma melhoria bem executada.

Inteligência artificial pode apoiar a revisão do portfólio

Empresas acumulam dados sobre formulações, custos, fornecedores, parâmetros de processo, shelf life, reclamações e vendas.

Ferramentas de inteligência artificial podem ajudar a relacionar essas informações e identificar oportunidades de melhoria.

Uma alteração de matéria-prima, por exemplo, pode ser analisada junto a rendimento, custo, preferência sensorial e recompra.

A tecnologia amplia a capacidade de análise, mas não substitui os testes e a avaliação das equipes responsáveis pelo produto.

Fornecedores podem ampliar a capacidade de desenvolvimento

Parte da inovação disponível para produtos existentes pode estar fora da empresa.

Fornecedores de farinhas, gorduras, culturas, proteínas, embalagens e equipamentos acumulam conhecimento específico que pode contribuir para novas soluções.

Agricultores também influenciam características importantes por meio de variedade, cultivo, colheita e armazenamento.

Nesse cenário, P&D tende a atuar de maneira mais integrada com toda a cadeia.

O desenvolvimento pode começar na matéria-prima e terminar apenas na experiência de consumo.

Equipes multidisciplinares podem reduzir conflitos

A evolução de um produto envolve diferentes interesses.

P&D trabalha formulação. Engenharia avalia processo. Nutrição observa composição. Compras acompanha custos. Marketing analisa consumidor.

Quando essas áreas participam de forma integrada, a decisão deixa de considerar apenas uma variável.

Isso ajuda a equilibrar qualidade, viabilidade econômica, escala e aceitação.

Inovação pode ser medida por outros indicadores

O número de lançamentos continua sendo uma métrica possível, mas não precisa ser o único indicador.

Empresas também podem acompanhar quantos produtos existentes foram aprimorados, quanto desperdício foi reduzido, quanto a preferência sensorial aumentou ou quantos processos foram simplificados.

Essa abordagem diferencia novidade de criação efetiva de valor.

Um novo SKU pode ter vida curta.

Já uma melhoria aplicada a um produto consolidado pode gerar resultado durante anos.

Portfólios maiores também aumentam complexidade

A expansão contínua do número de SKUs traz custos adicionais.

Mais produtos significam mais matérias-primas, embalagens, estoques, setups e necessidade de previsão.

Em determinadas situações, reduzir complexidade pode liberar recursos para investir mais nos produtos de maior relevância.

Isso não significa interromper lançamentos.

Significa avaliar se cada novo item justifica o custo operacional que adiciona ao sistema.

Lançamento pode ser o início do desenvolvimento

Para Edson Braga, colocar um produto no mercado não deveria encerrar seu processo de inovação.

Depois do lançamento, a empresa passa a ter acesso a dados reais de consumo em escala.

Recompra, reclamações, avaliações e comportamento comercial podem alimentar novas decisões de P&D.

Esse ciclo transforma o produto em uma plataforma contínua de aprendizado.

A indústria continuará precisando lançar novidades.

Mas parte de sua competitividade pode depender da capacidade de voltar aos produtos que já funcionam e perguntar, de forma recorrente, como torná-los melhores.

Nesse modelo, inovação não aparece apenas quando nasce um novo SKU.

Também acontece quando um produto conhecido evolui sem perder aquilo que fez o consumidor escolhê-lo.

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